quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Olhos falam a verdade, bocas só enganam [ou não].
Seus olhos abrem "caminhos pela força de vontade", não há como esconder uma emoção, ela estará estampada ali. Mesmo com a boca séria, haverá olhar risonho, mesmo com a boca risonha, haverá olhar sério. Há coisa mais linda que gente que sorri com boca e olhos? Fala a verdade que vem inundada por seu olhar? Não meu amigo, não há. 
Reside em qualquer banco de praça uma boca com cigarros que tanto fala ao colidir num olhar vazio, pessoas a quem você estende a mão e quer levar seu braço, você, sua vida. Mas não é em qualquer canto que há uma boca molhar em vinho e tragada em bom cigarro, que sorri seco, mas se interessa e se interessa pelo olhar. 
"Cão que ladra não morde." - já dizia minha mãe. Boca que muito fala mente, promete, consente. Olhar que muito expressa derrete, arrebata, dai meu amigo, não há quem se sustente.
De sempre em sempre, há lábia que sustente colidindo com olhar ausente. De vez em quando a sorte da lábia ausente colidida com aquele olhar que te sustente.

Audrey R.K. Flame.

Projeto mostra vítimas de abusos sexuais segurando frases ditas pelo violentador

"Seus pais foram jantar, mas não se preocupe
- eu vou cuidar de você"
Difícil acreditar, mas ainda nos dias de hoje, há pessoas que acham que vítimas de abuso sexual tiveram algum tipo de culpa por terem sido molestadas. Para quebrar esse paradigma que torna a vida das vítimas ainda mais difícil, a fotógrafa Grace Brown iniciou em 2011 o Projeto Unbreakable, no qual sobreviventes de abusos sexuais são fotografadas segurando uma frase dita pelo violentador.
"Pare de fingir que você é um ser humano"
 
"Isso fica entre nós" - meu avô, quando eu tinha
seis anos, depois dezesseis, quando as
memórias voltaram.
Até hoje, ela já fotografou mais de 400 pessoas, e diz ter recebido milhares de e-mails de vítimas que decidiram se expor com coragem, como forma de enfrentar o passado de frente e alertar para esse problema lamentável que ainda é muito recorrente na nossa sociedade atual.


"O que nós temos é tão especial que as pessoas
não entenderiam"
"Você gosta disso?"
O projeto é de fato forte e impactante, mas tem um papel importante: Aumentar o diálogo na sociedade sobre esse tema, geralmente considerado um TABU, na maioria dos casos ignorado.
"Você é a criança má, não eu." - ele
"Lembre-se: você que começou isso." - ele

"Não se preocupe, meninos geralmente
gostam disso."
Estupro é uma coisa claramente estúpida, a sociedade deva mudar a forma como vê o tema, parar de trata-lo como uma coisa frequente e problematizar com mais clareza o assunto.







"Você é muito bonita para ser lésbica."















Em grandes casos, a pessoa que foi estuprada é reprimida: "Você não deveria sair a essa hora, com essa roupa!", "É uma mocinha, tem que tomar cuidado.", "Ah, mas é homem, homem gosta, então não é estupro...".
"Ande logo e arrume essa bagunça" - ele se
referindo ao sangue e sêmen no chão.



























"Me dê um beijo de boa noite."
Claro que, desde os tempos antigos, essa prática monstruosa é existente, e há uma imensa impossibilidade de acabar com isso, mas, há uma necessidade de encarar isso de frente, bater cara a cara com o tabu, enfrentar o problema.


"Ninguém vai acreditar em você. Sou seu marido -
é a sua palavra contra a minha."



















Talvez assim, um dia, as pessoas ao menos entendam o que realmente é isso e deem mais importância ao tema.









Mais fotos do projeto aqui.
Fonte: hypeness

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Aos afetos e lágrimas derramadas na ausência da Dama a quem queria bem

"Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:
Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido:
Se és fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!
Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecer a chama fria."

 Gregório de Matos

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A origem da palavra "sincera"



A palavra 'sincera' é bastante usada no dia-a-dia: "Sinceramente falando...", "Estou sendo sincero com você...", e assim por diante. Dizemos que a pessoa é sincera quando fala realmente o que sente, sem malícia ou dissimulação, escondendo nada do outro. Mas você sabe qual é a origem da palavra?
A palavra 'sincera' vem da junção de duas palavras do latim: sine cera.
A versão mais comum para a origem dessa palavra é que, em Roma, escultores desonestos, quando esculpiam uma estátua de mármore com pequenos defeitos, usavam uma cera especial para ocultar essas imperfeições, de um modo que o comprador não percebesse.
Com o tempo, as pessoas que compravam essas estátuas descobriam as imperfeições, ou seja, descobriam que era uma escultura "cum cera". Os escultores honestos faziam questão de dizer que suas estátuas eram "sine cera", ou seja, perfeitas, sem defeitos escondidos.
Há também outra versão menos conhecida para a origem da palavra. Segundo esta versão, os artesãos romanos fabricavam vasos de cera. Se a cera era de excelente qualidade - pura -, o vaso tinha uma transparência que permitia ver os objetos colocados dentro dele. Os romando apreciavam muito um vaso assim e diziam que era um vaso que parecia não ter cera, sine cera, límpido.
Não importa a versão, a palavra sincera com o tempo passou a ser usada no sentido de "não haver nada a se esconder", "falar a verdade", e que tem tudo a ver com a história subjacente a seu significado original 
 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Eu não sei de onde vem tanta renitência e nem de onde germinam as minhas forças. Não sei onde elas se iniciam, nem quando elas cessam. E nem sei se neste caso - de fato - elas terminaram. Também não sei como é possível subir intermináveis escadas e quando olhar para trás, permanecer antes do primeiro degrau. Sei que existem momentos em que eu não consigo lidar, não dá para fingir e eu tombo do mais alto dos precipícios. Sinto tua ausência à flor da pele, descorada e ácida. Assim, eu fico sendo paraíso e inferno, sol e chuva. Mais tempestade do que o próprio sol. Altero-me de vez em sempre. Olho para o céu e vejo que nem as estrelas vivem sós, estou sorrindo, viro-me para o chão e estou debulhando em lágrimas. Entristeço-me em receber sinopses da sua vida cotidiana, somente a cada duas semanas e perto do final da quinzena, aproximadamente. Eu sei, entendo mais do que ninguém. Conheço cada um dos seus protocolos e sei de cor todos os nomes. Mas às vezes, não vejo empenho suficiente da tua parte. Eu luto tanto, por mim, por você, por nós dois. Derramo todo o sangue e suor que há em mim. Excedo os piores pélagos, piso nos mais árduos espinhos... Mas, parece que está parando vagarosamente, fazendo-me estacionar no meio da ponte também. Desastre, nos atrasamos para o terminal. Perdoa-me se estou te inculpando ou algo semelhante. Sei que quando me juras, efetivas. Porém, essa nódoa de sangue vem palpitando e se alastrando a cada dia, rasgando a carne e cravando o peito com inúmeros aguilhões. E culpo tudo, mesmo sem razões precisas. Sei que sou errante. Sou a maior idiota do mundo, por escrever estas coisas depois de tudo o que passamos juntos. Tudo que experimentamos e pactuamos. É por isto que muitas vezes acho que não vou tolerar. E não suporto. Mas eu insisto, desde que descobri um jeito de desfalcar a dor da ausência. Juntando os pedaços. Bordando a saudade. Mesmo que isto seja em curto prazo. Tu tem sido vulcão e iceberg, deixando metade do meu corpo incendiado e outra metade frígida. Sincrônico. Sei que somos apenas um, mesmo quando parecemos ser água e óleo, frente e verso, dia e noite. O que sentimos é a nossa afinidade, guarida para a nossa sobrevivência. O fôlego, para o nosso alívio... Sei que em breve estaremos assinando a carta de alforria do término de abstinência, e mataremos o fuso horário que nos atrasa. Esse chão que nos distancia. Tenho sido uma louca ao andar pelas ruas, colando cartazes de "procura-se", amargurada com meus passos lôbregos, cabisbaixa, sem direção, tendo as estrelas como teto. Não tenho dormido o bastante, pois as noites não acabam e os dias são cáusticos. Aqui, a estas horas, os pássaros já cantam. Sei que os dias são similares por ai, embora pareça a Filipinas. Estou trancada no quarto, deduzindo sempre que tu estás sorrindo. Se estás chorando a febre da saudade. Apregoando as pálpebras ou tocando piano. Na fila do pão ou num parque de diversões. Angustia-me não saber de ti. Não saber notícias tuas. Não ouvir o teu cantar, nem o teu falar. Esperando no celular a mensagem, que até agora não chegou. Aflijo-me literalmente. Lembro-me de tua voz calma com aquele sotaque inconfundível, dizendo que estaríamos juntos em breve. E saiba que, apesar do chá do teu sumiço, eu não me rendi. Pois sei que, se eu abdicar agora após todo esse caminho andado, minha espera não terá valido à pena. Nem a minha vida. Eu morreria... Eu apenas desejo que me corresponda, uma carta, uma ligação. Necessito saber de ti todos os dias, no despertar da manhã, quando acordo. Volte e seja fogo! Salve-me desse frio. Estou em nossa casa, abraçando todas as perspectivas do mundo e mirando aquele cartão-postal, ilustrado com o pôr do sol fascinante que me destes. Tu sabes mais do que ninguém, que eu irei perduravelmente te esperar. Nem que para isso eu precise passar a vida inteira nesta janela. 

[Embriagar-se]
Tu és assim, controversa
Anexo sem nexo
Paixão sem razão 
Filosofia científica sem razão
Tu és assim, fogo
Eu água
Ao teu toque fervo 
Derreto
Me transmuto
Subo aos céus como vapor
E me sublimo
Voltando a ser o que era pra mudar depois
Alquimia
Sexo
Tu és assim.
Tu és amor.

- Oziel Herbert

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Eu sou nublado, eu sou saudade, sou os olhares cruzados, o tiroteio de nossas vidas-fábulas, sem causar máculas, sem fazer alarde.
Estas minhas pálpebras serão decoradas com orvalhos doces e cirúrgicos, com o esmero prateado da minha memória e de seus amarantos laços, pois no decorrer da pouca vida, em nenhum instante me fiei ao gume da mentira, nem pousei minha face ao azedume do cansaço. Não me cessei, não me contive, não me neguei. Chovi, garoei, desmoronei. Fiz o que fiz e sorri. Também chorei, também parti, também fiquei. A dor da perda fora como tantas migalhas que deixei cair, ao alimentar o tempo de boca pequena, fome desgovernada e mandíbulas trêmulas. A saudade foi ficando, impregnando, fazendo parte, fazendo morada. Ficou como tatuagem acompanhando minhas noites calmas, minhas manhãs curtas, minhas madrugadas floridas, minhas tardes desafinadas... mas sempre fez parte do que sou. Ela ficou como sempre quis que você também ficasse, meu amor. Ela ficou e me ensinou as estações de sua ausência, as matrizes infinitas da poesia, a calma e a culpa do coração. Ela ficou e me ensinou também a beleza da cafeína, da nicotina, das camomilas... me ensinou que a paz não é um telhado pra se esconder do céu se nublado de exaspero. Paz é carta manuscrita que chega para nos alegrar o dia. Paz é plenitude repente, de vez em quando, cadente, que às vezes nos vê de janela fechada e nem nos sobe à calçada pra gritar por nós. Paz é rua sem saída que encontramos sem querer, quando tudo o que queremos é ter por onde passar, por onde ser notado, sentido, talvez até odiado. A paz não é o branco, não é o azul. Paz é quando deixamos de querer pintar nossas ternuras e passamos a cultivar flores nas feridas, regar e podar suas ramas, pra que olhe em volta e se torne primavera. Foi o que aprendi com a saudade... nos tornamos flor por não ter quem nos floreje. Saudade é singular na tristeza, na carícia, nos suspenses cardíacos... somos canteiros férteis que aguardam penosamente por quem nos semeie borboletas e tintas distintas, mendigando primaveras pelas perpétuas pétalas da insônia. E você nunca veio pra me compensar os espinhos de meus versos, nem da embriaguez de meus vinhos tintos. E me tornei o que sou. Cinzas e só.
Ser saudade é ficar com tudo aquilo que nunca se soube ficar.

— Annd Yawk